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O palco como espelho da alma: O que Hamnet revela sobre a escrita que transforma

Agnes no the Globe

Acabei de assistir a Hamnet (2025), o filme dirigido pela aclamada Chloé Zhao (vencedora do Oscar por Nomadland), e fiquei especialmente tocada porque ele fala de como a dor pode ser ressignificada em forma de arte. A obra, baseada no romance homônimo de Maggie O’Farrell, narra a história da família de William Shakespeare e a perda de seu filho, Hamnet, aos 11 anos de idade.

O filme, estrelado por Jessie Buckley e Paul Mescal, um ator comovente, é uma meditação visualmente poética sobre o luto e a criação. Ele postula que, após perder o filho para a peste em 1596, o bardo de Stratford-upon-Avon não se cala ou se afoga na dor, mas a transforma em linguagem, escrevendo Hamlet (cerca de 1600-1602). Não como homenagem piegas, mas como criação viva. Dor que vira arte.

Aquilo me atravessou porque é exatamente isso que proponho com a Escrita Cocriadora, mas especificamente seu aspecto Escrita CurAtiva, para aqueles que estão familiarizados com o meu ecossistema. Escrever não como catarse vazia, mas como forma de dar sentido ao que não tem lógica. Transformar perda em presença, ausência em linguagem.

O que é escrita criadora e por que ela transforma

Meu método é empírico. Nasceu de uma vivência íntima e da observação de como eu havia transformado dor em cura, cura em satisfação e, futuramente, em realização de sonhos. Por isso, o aspecto curativo está inserido no cocriador, no qual entra o aspecto curador, no sentido de curadoria do que entra (e como entra) e o que sai (e como sai) da vida do-a Cocriador-a.

Isso está cristalino em Hamnet: como transformar dor em arte, ou ao menos em qualquer coisa que dê sentido e te liberte do sofrimento. Pois tentar ignorar e arrastar para baixo definitivamente não é uma opção para quem deseja usufruir o melhor de sua própria existência. Como muito bem ilustrou uma amiga minha, “ser humano não tem ralo”. Se tivesse, seria muito fácil escoar o indesejado, não é mesmo?

Na Escrita Cocriadora, a escrita é ferramenta, processo, travessia e produto final.

Ela envolve uma escuta profunda do que está vivo em você, seja dor, dúvida ou vazio. Você escreve para organizar ideias, mas principalmente para se encontrar dentro delas. E, quando isso acontece, algo se move. Algo se cura e se transforma.

O filósofo Alain de Botton fala disso de outro ângulo: sobre como a arte nos permite reconhecer o que sentimos, mesmo quando não sabemos nomear. É isso. A escrita, quando feita desse lugar, nos devolve a nós mesmos com mais nitidez.

Escrever a partir da dor não é se afogar nela

Quando me refiro à Escrita CurAtiva (uma dimensão essencial do ecossistema da Escrita Cocriadora) não estou falando de autoajuda. É sobre superação, sim, mas uma superação que acontece pelo meio criativo. É o movimento de transformar a dor em algo novo, e a beleza disso é que não é necessário ser um Shakespeare para trilhar esse caminho.

Hamnet ilustra essa transição com uma delicadeza brutal: o palco surge como um espaço de cura simbólica. É exatamente o que testemunho quando um-a Cocriador-a mergulha no meu processo: a dor deixa de ser um peso estático para se tornar matéria-prima, transformando-se em algo que gera prazer, sentido e realização.

Não se trata de aprender a escrever “bem” seguindo regras rígidas. Trata-se de escrever a partir de um lugar que pulsa verdade. E autenticidade é a melhor matéria-prima de que se pode dispor, com uma potência que supera qualquer técnica.

A escrita que te devolve a ti mesmo-a

A arte não salva no sentido romântico. Mas ela transforma. E transformar já é uma forma de salvação.

Se Hamnet mostra como o luto pode virar linguagem viva, a Escrita Cocriadora mostra como qualquer experiência humana, seja dor, desejo, vazio ou êxtase, pode encontrar forma e sentido através da escrita.

Se você sente que tem algo dentro que quer ser dito, mas ainda não sabe como, é isso que a Escrita CoCriadora oferece.

No caso de Shakespeare, o que ficou foi Hamlet, onde o nome de seu filho ressoa e se eterniza. No seu caso, o que fica pode ser um texto, um livro, uma fala ou um simples gesto escrito, mas um gesto que revela quem você realmente é quando todas as outras camadas caem.

Quer saber mais sobre a Escrita Cocriadora? Leia aqui ou me manda um email: ticiana@ticianaazevedo.com

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